"Sair, fazer, pôr em dia, não eram coisas que o ajudassem a adormecer. Pôr em dia, que expressão! Fazer. Fazer algo, fazer o bem, fazer pipi, fazer hora: a ação em todas as suas complicações. Contudo, por trás de toda e qualquer ação, havia sempre um protesto, pois todo fazer significava sair de para chegar a, ou mover algo para que ficasse aqui e não ali, ou entrar numa determinada casa em vez de entrar ou não entrar na casa ao lado, significando isso que em qualquer ato havia sempre a confissão de uma falha, de algo ainda não feito que era possível fazer, o protesto tácito diante da contínua evidência da falha, da mesmice, da imbecilidade do presente. Acreditar que a ação pudesse culminar ou que a soma das ações pudesse realmente equivaler a uma vida digna desse nome era uma ilusão de moralista. Mais valia renunciar, pois a renúncia à ação era o próprio protesto, e não a sua máscara".
Cortázar, em O jogo da amarelinha.
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Bom dia, Dia.
67
Estou amarrando os sapatos, contente, assobiando; e de repente a infelicidade. Mas desta vez eu te pesquei, angústia, senti a tua chegada antes de qualquer organização mental, ao primeiro juízo de negação. Como uma cor cinza que fosse uma dor e fosse o estômago. E quase ao mesmo tempo (mas depois, dessa vez não me enganaste) o repertório incompreensível abriu caminho, com uma primeira idéia explicatória: "E agora viver outro dia, etc." Do que se deduz: "Estou angustiado porque... etc."
As ideias à vela, impulsionadas pelo vento primordial que sopra de baixo (mas de baixo é apenas uma localização física). Basta uma mudança de brisa (mas o que é que a faz mudar de quadrante?), e logo a seguir surgem as barquinhas felizes, com suas velas coloridas. "Apesar de tudo, não há razão de queixa, cara...", esse estilo.
Acordei e vi a luz do amanhecer pelas frestas da persiana. Saía tão de dentro da noite que tive como que um vômito de mim mesmo, o espanto de entrar num novo dia com a mesma apresentação, com a sua indiferença mecânica de sempre: consciência, sensação de luz, abrir os olhos, persiana, o amanhecer.
Nesse segundo, com a onisciência do semi-sonho, medi o horror daquilo que tanto maravilha e encanta as religiões: a perfeição eterna do cosmos, a rotação incessante do globo sobre o seu eixo. Náusea, sensação insuportável de coação. Sou obrigado a tolerar que o sol saia todos os dias. É monstuoso. É inumano.
Antes de voltar a adormecer, imaginei (vi) um universo plástico, mutante, cheio de maravilhosos acasos, um céu elástico, um sol que inesperadamente falta, ou fica imóvel, ou muda de forma.
Ansiei pela dispersão das duras constelações, essa suja propaganda luminosa do Truste Divino Relojoeiro.
O jogo da amarelinha- Cortázar
Por mais que se ame a vida, nem todos os dias é tão bom abrir os olhos. Como tudo no mundo parece ambíguo... As sensações são sempre o que, de alguma maneira, nos motiva, nos empurra, nos leva adiante. Mas essas mesmas sensações, incontroláveis, sensíveis, podem nos levar ao abismo. A ordem, que faz com que as coisas funcionem, muitas vezes desespera. Queria poder pedir à vida mais dias de excessões, de absurdos, de milagres. As vezes queria poder pedir à vida, mais vida.
Estou amarrando os sapatos, contente, assobiando; e de repente a infelicidade. Mas desta vez eu te pesquei, angústia, senti a tua chegada antes de qualquer organização mental, ao primeiro juízo de negação. Como uma cor cinza que fosse uma dor e fosse o estômago. E quase ao mesmo tempo (mas depois, dessa vez não me enganaste) o repertório incompreensível abriu caminho, com uma primeira idéia explicatória: "E agora viver outro dia, etc." Do que se deduz: "Estou angustiado porque... etc."
As ideias à vela, impulsionadas pelo vento primordial que sopra de baixo (mas de baixo é apenas uma localização física). Basta uma mudança de brisa (mas o que é que a faz mudar de quadrante?), e logo a seguir surgem as barquinhas felizes, com suas velas coloridas. "Apesar de tudo, não há razão de queixa, cara...", esse estilo.
Acordei e vi a luz do amanhecer pelas frestas da persiana. Saía tão de dentro da noite que tive como que um vômito de mim mesmo, o espanto de entrar num novo dia com a mesma apresentação, com a sua indiferença mecânica de sempre: consciência, sensação de luz, abrir os olhos, persiana, o amanhecer.
Nesse segundo, com a onisciência do semi-sonho, medi o horror daquilo que tanto maravilha e encanta as religiões: a perfeição eterna do cosmos, a rotação incessante do globo sobre o seu eixo. Náusea, sensação insuportável de coação. Sou obrigado a tolerar que o sol saia todos os dias. É monstuoso. É inumano.
Antes de voltar a adormecer, imaginei (vi) um universo plástico, mutante, cheio de maravilhosos acasos, um céu elástico, um sol que inesperadamente falta, ou fica imóvel, ou muda de forma.
Ansiei pela dispersão das duras constelações, essa suja propaganda luminosa do Truste Divino Relojoeiro.
O jogo da amarelinha- Cortázar
Por mais que se ame a vida, nem todos os dias é tão bom abrir os olhos. Como tudo no mundo parece ambíguo... As sensações são sempre o que, de alguma maneira, nos motiva, nos empurra, nos leva adiante. Mas essas mesmas sensações, incontroláveis, sensíveis, podem nos levar ao abismo. A ordem, que faz com que as coisas funcionem, muitas vezes desespera. Queria poder pedir à vida mais dias de excessões, de absurdos, de milagres. As vezes queria poder pedir à vida, mais vida.
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